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Assa Ariyoshi for BuzzFeed News

Como as mulheres modernizaram as princesas Disney

Conheça algumas das mulheres que abriram caminho para princesas que não precisam de príncipes nem de cinturas minúsculas.

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Quando, no ano passado, apareceram as primeiras imagens da protagonista de "Moana", muitos notaram de imediato o corpo robusto e realista da heroína polinésia. “Foi algo intencional, parcialmente inspirado pelo desejo que ela fosse diferente”, disse ao BuzzFeed o codiretor John Musker, em julho. “Queríamos que ela fosse uma heroína de ação.”

Ainda que Musker tenha visto o corpo musculoso de Moana como uma marca de seu diferencial, não foi a primeira vez que os fãs da Disney ouviram algo nesse sentido. “Eu queria uma garota de verdade”, afirmou a roteirista e diretora do filme "Valente", Brenda Chapman, ao jornal "The New York Times" em 2012, sobre a arqueira Merida. “Não uma garota com a qual poucas poderiam se identificar, com pernas, cintura e pernas minúsculas e magricelas. Eu queria uma garota atlética.” Valente, disse ela, subvertia os clichês dos contos de fada.

Catorze anos antes, Ming-Na Wen, a dubladora de Mulan, disse ao "USA Today" que sua personagem era “a antítese de Cinderela. Ela não usa um vestido. Ela usa uma armadura”.

Courtesy of Sue Nichols; Walt Disney Co. / Courtesy Everett Collection

No topo, estudo para os personagens de Moana e Maui; abaixo, como os dois, desenhados por Sue Nichols, ficaram no filme "Moana"

Afirmar que uma heroína da Disney rompe com a tradição de suas antecessoras é também uma tradição que remonta a 1989, com Ariel, a princesa insolente de "A Pequena Sereia".

Em 1990, Ron Clements – codiretor, junto a Musker, tanto de "Moana" quanto de "A Pequena Sereia", além de outros filmes da Disney – disse ao Scripps Howard News Service que o cabelo ruivo de Ariel havia chocado algumas pessoas. “Mas nós sentimos que era importante”, explicou, “tornou-a diferente”.

Dizer que a mais nova princesa não é como as que vieram antes dela se tornou quase tão essencial para a fórmula da "princesa Disney" quanto o coadjuvante animal ou um pai ou uma mãe que não compreende a protagonista.

No entanto, a estética masculina de Mulan e as proporções atléticas de Moana poderiam não ter chegado às telas não fossem por mulheres nos bastidores que as moldaram, às vezes literalmente. “As mulheres envolvidas no filme, nossa produtora e algumas (outras) eram... desafiadoras. ‘Não vamos fazer com que ela seja magricela. Vamos fazer com que ela tenha um formato de corpo mais realista e que não pareça que um vento forte pode arrastá-la pra longe,” disse Musker sobre Moana na mesma entrevista ao BuzzFeed em julho.

A verdade, é claro, é que nenhuma princesa descartou totalmente o manual da realeza, mas, desde Ariel, cada uma delas burlou algumas regras. E, cada vez mais, foram as mulheres da Disney que pressionaram por mudanças – tornar as personagens mais inteligentes, mais corajosas e mais independentes. Enquanto a Disney discutia internamente se filmes de princesa só tinham apelo junto a meninas, um grupo de mulheres começou a desafiar a própria ideia do que significava ser uma princesa para refazê-la à imagem de uma mulher do século 21.

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Entre a morte de Walt Disney em 1966 e o final dos anos 1980, o departamento de animação da companhia despencou. Ao passo que animadores influentes contratados nos anos 1920 e 1930 – os Nove Velhos, como eram conhecidos – começaram a se aposentar (e a morrer, em alguns casos), um grupo de artistas novos, mas ainda predominantemente branco e masculino, assumiu seus postos, trazendo uma nova abordagem para as personagens femininas.

Nos anos 1980, ainda eram poucas as animadoras com poder suficiente para gerar uma grande mudança na Disney. Ao longo da maior parte da década, a Disney não teve roteiristas mulheres para planejar visualmente as cenas antes de elas serem mandadas aos animadores. Inclusive, o estúdio perdeu sete artistas mulheres para uma nova empresa fundada por um desertor, Don Bluth Productions, em 1979. Uma mulher em meio ao êxodo, Lorna Cook, explicou que Bluth era uma das poucas pessoas na Disney que ativamente promovia as mulheres na época.

No entanto, logo no começo da produção de "A Pequena Sereia", em 1987, a Disney deu um pequeno passo em direção ao equilíbrio de gênero – um que rendeu imensos dividendos nas bilheterias.

Chapman, recém-saída da escola de arte, foi contratada para trabalhar no filme, inicialmente como roteirista estagiária. Ela se lembra de ter ouvido o homem que a contratou dizer com desdém que ela só tinha conseguido o trabalho "porque era uma mulher". Mais tarde, ela se tornou uma líder na Disney, chefiando o roteiro de "O Rei Leão" e, mais tarde, como roteirista e diretora de "Valente".

Em "A Pequena Sereia", ela era a única mulher entre sete artistas de storyboard creditados. Como a pessoa mais nova na equipe, Chapman foi designada para fazer o rascunho da seção “Parte do Seu Mundo (Reprise)”, na qual Ariel observa o príncipe Eric na praia. A artista desenhou uma onda quebrando atrás da adolescente apaixonada, hoje talvez a tomada mais icônica do filme. “Se fossem os Nove Velhos, Ariel teria sido muito diferente”, disse Kathy Zielinski, que animou a nêmesis de Ariel, a bruxa do mar Ursula.

A sereia do título é uma jovem persistente que abandona o mar para ir atrás de um príncipe humano: ao contrário de Branca de Neve, Cinderela e Aurora de "A Bela Adormecida", a ruiva dos biquínis de concha, que desafiava a autoridade do seu pai, era definida pela curiosidade e pela rebeldia. De acordo com o roteirista de "A Pequena Sereia", Ed Gombert, “era uma época diferente da de Walt, então eu acho que tratá-la de forma diferente era um instinto natural.”

"A Pequena Sereia" tornou-se um dos filmes de maior bilheteria de 1989 e ganhou dois Oscars pela sua trilha sonora, apesar das preocupações dos principais executivos da Disney de que a animação só teria apelo junto a meninas pequenas, conforme conta James B. Stewart no livro "DisneyWar". Apesar do sucesso, segundo o "The New York Times", o diretor Musker disse ter passado por “maus bocados nas mãos de algumas mulheres", por Ariel ter sido representada como alguém que "não estava completa sem um príncipe.” Da mesma forma, o "Los Angeles Times" relatou que Clements e Musker, que não estavam disponíveis para uma entrevista, tinham sido colocados na defensiva em uma exibição na University of Southern California: um membro da audiência questionou-os sobre as oportunidades escassas para as mulheres nos bastidores.

A Disney então trouxe a roteirista Linda Woolverton para seu próximo filme de princesa, "A Bela e a Fera", um musical exuberante sobre o romance entre uma rata de biblioteca e o príncipe incompreendido que a mantém refém em seu castelo.

“Não houve nenhuma ordem superior expressa para respondermos às críticas feitas a 'A Pequena Sereia'”, disse Woolverton – que ainda é uma das roteiristas mais respeitadas na Disney – ao "Los Angeles Times" à época do lançamento de "A Bela e a Fera", em 1992. “Mas eu acho que o estúdio se sentia confiante de que, enquanto mulher, eu não escreveria uma personagem sexista.”

Woolverton, junto a Chapman e ao letrista e produtor executivo Howard Ashman, moldou Bela como uma heroína multifacetada. A visão da roteirista exigia maior sensibilidade em relação a questões de gênero.

Zielinski, que na época estava na Disney (ainda que não tenha trabalhado em "A Bela e a Fera"), recorda-se dos pedidos de sugestões para a cena na qual Bela se resigna com sua vida de prisioneira. Ela se lembra de um dos roteiristas homens lhe perguntando: “Você choraria se estivesse nessa situação?” (Sim, respondeu Zielinski. Mas sem choramingar demais.)

Chapman desenhou os storyboards para a cena em que Bela faz um curativo na Fera e desafia sua crueldade; a Fera se cala depois que ela diz, com raiva: “Você deveria aprender a controlar seu gênio!” Quando Chapman apresentou o storyboard representando o confronto, os dez homens que também estavam na equipe de roteiro aprovaram com entusiasmo.

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Mas nem todas as quebras de paradigma foram tão tranquilas. “Cada fala de diálogo [da Bela] era uma batalha” disse Woolverton à Entertainment Weekly em 2016.

Ao contrário de Cinderela, que alegremente aceita sua sina como criada da madrasta severa, Bela grita cara a cara com seu captor. “Você tem que entender que a ideia da heroína-vítima estava embrenhada na história”, disse Woolverton. “Eu tinha testemunhado o movimento feminista nos anos 1960 e 1970 e definitivamente não conseguia engolir essa garota inteligente, atraente e jovem sentada esperando seu príncipe. Que ela era alguém que sofre em silêncio e só quer uma rosa. Que ela aguenta todo esse abuso, mas ainda tem um coração bondoso. Eu tinha problemas com isso.”

Sue Nichols, que trabalhou no desenvolvimento visual de "A Bela e a Fera", escreveu em um e-mail para o BuzzFeed News que foi dela a ideia de dar a Bela uma confidente feminina, que ao fim tomou a forma da Madame Samovar. Ela explicou que a jovem mulher precisava de apoio feminino para “se sentir segura o suficiente para se apaixonar” pela Fera.

Lorna Cook, que voltou para a Disney depois de anos trabalhando com Don Bluth, filmou a si mesma como referência quando estava animando as carícias ternas e hesitantes de Bela na Fera transformada no final do filme. Como a única mulher no time de sete pessoas que animou Bela, ela explicou que se sentia confortável desenhando “a forma feminina”.

“Bela é uma feminista”, declarou Woolverton ao "Los Angeles Times", algo bastante ousado para 1992. Ela explicou que “queria uma mulher dos anos 1990.” Bela é uma leitora voraz que anseia por mais do que sua “vida provinciana”. O vilão, Gaston, é um misógino grosseiro que persegue romanticamente Bela, apesar de suas objeções. Sim, ainda é uma história de amor, mas Bela foi um passo na direção da solteirona orgulhosa. E foram mulheres que a impulsionaram para lá.

As próximas duas heroínas da Disney — Jasmine e Pocahontas — foram mais problemáticas. "Aladdin" e sua princesa, Jasmine, receberam críticas de grupos árabes por embranquecer os heróis e fazer os personagens maus parecerem e soarem mais “étnicos”, entre outros problemas.

Rebecca Rees, roteirista do filme, não se lembra de qualquer esforço para contratar mulheres (ou homens) árabes para trabalhar como artistas em "Aladdin". Ainda assim, Jasmine procura um marido nos seus próprios termos e contra os desejos do seu pai, o sultão. (Jasmine está no panteão de princesas Disney apesar de ser o interesse romântico e não a protagonista, mas nem toda princesa mencionada nesse texto é da realeza propriamente dita, nem necessariamente parte da marca oficial de princesas Disney.)

Mais ainda do que com Ariel, vemos o pai de Jasmine amuá-la e sufocá-la; nós também a vemos ralhar contra o senso de poder masculino. Quando Aladdin, seu pai e Jafar discutem as perspectivas de casamento de Jasmine, ela grita: “Como se atrevem? Vocês todos, parados aí decidindo meu futuro? Eu não sou um prêmio”.

Ress, uma das duas mulheres entre os 16 roteiristas creditados em "Aladdin", retratou visualmente os impulsos conflitantes de pai e filha em uma cena no jardim em que o sultão coloca uma pomba de volta em uma gaiola cheia de pássaros, e Jasmine impulsivamente abre a gaiola e vê o bando voar para longe, em direção à vastidão do mundo. “Pensei: talvez nós pudéssemos simplesmente mostrar que ela quer liberdade”, disse Rees ao BuzzFeed News. Apesar de todos os seus defeitos, "Aladdin" retrata uma mulher que quer ser dona de si mesma e – como o Gênio – “livre”.

Nichols, a segunda roteirista de "Aladdin", foi a responsável pela cena em que Jasmine seduz Jafar como um ato de autodefesa. Jafar espera que o Gênio force o amor de Jasmine por meio de mágica, então ela finge estar seduzida, falando sobre os “adoráveis espacinhos” entre os dentes do vilão, para manter os olhos dele longe da operação que Aladdin está fazendo para salvá-la. “Essa era uma moça esperta”, disse Rees. “Ela sabia o que precisava fazer.” Aladdin de fato a resgata, mas só o faz com a ajuda dela.

Em um nível ainda maior do que "Aladdin", "Pocahontas" conta a história de uma inteligente jovem que desafia uma convenção: a heroína do século 17 se apaixona por um colonizador e o salva da execução, evitando um conflito armado no caminho. No entanto, o filme conta a história por meio de estereótipos e distorções históricas. O consultor Powhatan do filme, Shirley Little Dove Custalow McGowan, renegou "Pocahontas". “Meu povo está preocupado porque nossa história já foi muito alterada”, disse ela ao "Los Angeles Times" em 1995, dizendo que tinha sido enganada pela produção. Os roteiristas creditados no filme eram todos homens, e nenhum deles nativo americano.

Também havia apenas uma mulher em uma equipe de 17 pessoas que animaram a personagem principal, mas a não glamourosa e ainda assim essencial equipe de limpeza de traço (clean-up, em inglês) de Pocahontas – que pega esboços e os transforma em animação – era esmagadoramente feminina.

Como explicou Emily Jiuliano, assistente-chave de limpeza de traço no filme, “Nós preservávamos o melhor da arte [dos animadores] e a melhorávamos”. O processo de limpeza de traço lida com muitos erros. Jiuliano se lembra, em particular, de consertar uma cena em que Pocahontas inspirava, e seu peito amplo levantava, e então – em vez de descer – continuava levantando. A equipe de limpeza de traço se certificou de que os seios da personagem permanecessem firmes em seu lugar.

Apesar da perpetuação de mitos perniciosos acerca da colonização, "Pocahontas" ainda é notável como o primeiro filme de princesa da Disney a acabar sem um casamento, real ou iminente. Ao contrário, Pocahontas escolhe sua comunidade em vez de seu homem. Quando um John Smith ferido pede a ela que vá para a Europa com ele, ela recusa, e o filme acaba com ela vendo-o navegar para fora da sua vida.


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Depois de aprender um pouco com seus erros na representação racial de personagens, a Disney fez escolhas diferentes para "Mulan", de 1998, um filme sobre uma jovem que se veste de homem para servir ao Exército chinês no lugar de seu pai.

O produtor Pam Coats disse ao BuzzFeed News que o estúdio fez um esforço para contratar membros dos grupos étnicos que estavam sendo retratados no longa. Em particular, foram chamados o lendário designer de personagem Chen-Yi Chang e a roteirista Rita Hsia. Nichols, que trabalhou no desenvolvimento da protagonista, escreveu em um e-mail, “quando começamos a desenvolver Mulan, pediram-nos que nos certificássemos de que as etnias ficassem visíveis nos nossos desenhos de modo a não ofender nosso público.”

Caroline Hu, que trabalhou no time de desenvolvimento visual, disse que foi uma luta projetar uma personagem que tinha que ser feminina e bonita e, ainda assim, passar por um soldado homem. “Ela tinha que usar uma armadura de homem”, disse Hu, a respeito de Mulan. “Ela era uma garota que tinha que viver em um mundo de homens. Então, ela não era uma personagem feminina. Como você ainda mantém uma garota feminina enquanto ela está fazendo todas essas coisas másculas?”

Essa aparente contradição, disse Hu, mais tarde colocaria a heroína em uma posição difícil nos produtos da marca Princesa Disney: em geral, as bonecas Mulan são vendidas vestindo roupas femininas, em vez da armadura que a personagem usa durante grande parte do filme. “Ela não é uma mocinha, e eu acho que isso foi o mais difícil para a Disney, em geral”, disse Hu. “Você olha os produtos, e ela não é destacada como um das outras princesas ‘de verdade’.”

Muito do que qualificava as outras princesas como “de verdade” era o romance, mas a relação de Mulan com Shang foi intencionalmente minimizada. Um casamento foi tirado de questão nas primeiras fases de desenvolvimento, disse Coats. “Não queríamos que o filme acabasse com ela voltando para casa e se casando”, disse ela. “Não era disso que se tratava.”

“Passei muito tempo em salas ouvindo homens dizer como as mulheres pensavam e se vestiam e como era o formato de seus corpos”

Coats tinha tido dificuldade para encontrar roteiristas mulheres para o filme. Depois que Lorna Cook deixou a produção, só ficaram homens na equipe de roteiristas. “Passei muito tempo em salas ouvindo homens dizer como as mulheres pensavam e se vestiam e como era o formato de seus corpos” disse ela ao BuzzFeed News.

Esse problema ficou mais claro a ela durante a discussão de uma cena: quando o Exército descobre que Mulan, na verdade, é uma mulher. Na versão final do filme, essa descoberta é feita fora das telas, quando a heroína é tratada por um médico. Assim, o público não testemunha o momento em que seu corpo nu revela a verdade. Nos rascunhos iniciais de um artista homem, “era revelado que ela era uma mulher na frente de toda [a unidade] – e parecia tão desrespeitoso”, disse Coats.

Em 1998, ela disse à "Newsweek" que outra versão anterior mostrava um oficial rasgando as roupas de Mulan em público. “Todos aqueles homens não conseguiam perceber que isso era uma violação”, disse ela na época. Devido a Coats, o desmascaramento da guerreira na versão final do filme é, na maior parte, privado.

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"A Princesa e o Sapo" e "Enrolados", lançados em 2009 e 2010, respectivamente, depararam-se com questões tanto raciais quanto de gênero, e nenhuma mulher foi creditada por qualquer um dos roteiros.

O primeiro apresenta Tiana, a primeira princesa negra da Disney, mas que passa boa parte do filme como um sapo verde. Os roteiristas, produtores e diretores de "A Princesa e o Sapo" eram quase todos homens brancos, e ninguém dentre eles era uma mulher negra.

O filme não é particularmente progressivo na sua representação de raça, mas como o escritor-diretor Musker disse ao "Salt Lake Tribune" em 2009, Tiana notavelmente “tem uma carreira... Ela tem esses objetivos que não envolvem apenas ficar de olho em um homem”. Sua luminosa sequência de sonho ao som de “Quase Lá” – a obrigatória canção de “eu quero” que expõe a motivação da heroína – foi criada por Nichols e mostra o desejo de Tiana de abrir seu próprio restaurante, não de arrumar um marido.

Conforme ela anda pela sua cozinha comercial imaginária, consertando alegremente os erros de seus empregados homens, ela canta, “Tudo pode acontecer / Ver um sonho realizado / Só depende de você”. O filme apresenta um romance, mas esse foi um vislumbre do que “felizes para sempre” pode parecer para uma mulher loucamente apaixonada pela sua carreira.

Ao todo, "A Princesa e o Sapo" arrecadou 267 milhões de dólares ao redor do mundo e foi considerado pela Disney uma fracasso de bilheteria. Com o estúdio temeroso de outra arrecadação fraca, "Enrolados" inflou o papel do seu protagonista masculino, Flynn, e alterou o título original (que era "Rapunzel"), para que os garotos não fossem repelidos por um filme excessivamente feminino.

Retomando as preocupações sobre se os filmes de princesas da Disney poderiam ter apelo a qualquer público além de garotas, o presidente de animação da Disney Ed Catmull disse ao "Chicago Tribune" em 2010 que a recolocação da marca de "Enrolados" era necessária. “Algumas pessoas podem assumir que é um conto de fadas para meninas, quando não é”, disse ele. “Nós fazemos filmes para serem apreciados e amados por todos.”

A narração de Flynn começa e encerra o filme, ainda que ele claramente não seja o protagonista. “Esse sequestro temporário do conto de uma princesa por seu interesse amoroso de queixo quadrado parece uma manobra comercial bruta,” notou o crítico A. O. Scott do "The New York Times". “[Um] sinal para os garotos na plateia de que as coisas não vão ficar muito ‘menininha’”.


Em "Valente", de 2012, a princesa Disney finalmente deixou o príncipe de lado. Concebida e executada por Chapman, a protagonista do filme, Merida, rejeita um casamento arranjado, como muitas de suas antecessoras da Disney. No entanto, seu final feliz não é encontrar outro marido em potencial que seus pais acabam por aceitar, como fizeram Jasmine e Mulan. Em vez disso, ela se reconcilia com sua mãe e rejeita todos os pretendentes.

O filme critica severamente expectativas de gênero, começando logo na primeira cena, em que o público fica sabendo que a atração de Merida pelo tiro com arco não está de acordo com as ideias que sua mãe tem de uma “dama”. Mais tarde no filme, Merida entra em uma competição de tiro para ganhar sua própria mão em casamento; ela rasga a manga e a parte de trás do seu vestido sedoso e restritivo e atira melhor do que todos os seus maridos em potencial.

“Eu só queria quebrar o molde da princesa menininha,” disse Chapman ao BuzzFeed News. “Eu queria uma princesa que lutasse contra isso, que dissesse não. Alguém que se visse como capaz de se defender e lutar, mas ainda assim tivesse defeitos.” Sob a direção de Chapman, o time técnico da Pixar desenvolveu um novo jeito de animar cabelo – os cachos ruivos de Merida são quase tão indomáveis quanto ela. E, ao contrário de quase toda princesa antes dela, a relação parental mais próxima de Merida é com sua mãe. Seu pai é, em grande parte, um alívio cômico. “Eu queria uma história de mãe e filha”, disse Chapman. “Porque tanto [para] Ariel quanto Bela, não havia mãe nas histórias. Elas estavam mortas.”

Chapman abriu caminho para Jennifer Lee, a roteirista e diretora de "Frozen", que se tornou a segunda mulher a dirigir um filme animado da Disney. Seu filme de 2013 sobre a relação de duas irmãs foi um sucesso de bilheteria. E o amor de Elsa e Anna – que brilha mais forte do que qualquer subtrama de romance – ajudou a garantir o status de blockbuster, apesar do fato de que a Disney a princípio minimizou a importância das personagens femininas em materiais de divulgação.

O clímax do filme é o momento em que Anna se sacrifica por sua irmã: ela se afasta de um “beijo de amor verdadeiro” (que ela acredita que salvará sua vida) e se joga entre Elsa e o vilão, transformando-se em gelo no processo. Mas, para a surpresa de Anna, o amor de um homem nunca foi o importante: quando Elsa se curva sobre sua irmã congelada e chora, o feitiço é rompido no abraço do amor verdadeiro das irmãs.

Kristen Anderson-Lopez, que escreveu as canções originais de "Frozen" com seu marido e parceiro de composição Robert Lopez, disse ao "The New York Times" que o hit do filme, a música “Let It Go”, era “um hino que dizia: ‘Dane-se o medo e a vergonha, seja você mesma, seja poderosa”.

Ouvir a música inspirou Lee a levar o roteiro a uma direção totalmente diferente. Como Stewart relatou em "DisneyWar", "Frozen" era sobre uma “megera” (como expressou uma executiva) nos seus estágios iniciais de desenvolvimento, em 2003.

Então intitulado "A Rainha da Neve", devido ao conto de fadas de Hans Christian Andersen, sua personagem principal congelava seus pretendentes. Elsa seria, literalmente, uma bruxa de coração frio. Depois de “Let It Go”, Lee a reescreveu como uma mulher formidável e imperfeita, tentando lidar com imensos poderes mágicos.

Agora, depois de uma sucessão de princesas brancas, a Disney revelou "Moana". Novamente tomando maior cuidado com a representação, a Disney contratou o roteirista e diretor Maori Taika Waititi para dar um retoque no roteiro (embora ele não tenha sido creditado como roteirista na versão final do filme).

Chamar Clements e Musker para dirigir parecia um risco depois dos problemas de representação de "A Pequena Sereia", "Aladdin" e "A Princesa e o Sapo". No entanto, eles fizeram um esforço para contatar e contratar polinésios no começo da produção. (Ainda assim, alguns criticaram a forma desordenada pela qual o filme aborda diferentes tradições nativas, bem como as implicações colonialistas de fazer filmes sobre povos nativos.)

É significativo que "Moana" não apresente sequer uma insinuação de uma história de amor – a protagonista é simplesmente uma jovem inteligente e poderosa com um biótipo realista e não sexualizado, em uma aventura para salvar sua ilha.

Todos esses conceitos foram defendidos em outros filmes de princesas feitos por mulheres na Disney – a inteligência e ambição de Bela e Tiana, os corpos mais humanos de Mulan e Merida, a devoção de Pocahontas à sua comunidade e as rejeições variáveis de "Valente" e "Frozen" ao romance. A produtora Osnat Shurer, de "Moana", disse ao BuzzFeed News que nunca houve uma história de amor no filme em qualquer etapa de desenvolvimento. “Não havia espaço”, disse ela em uma entrevista por telefone.

Quando Moana anseia por uma aventura no mar aberto, seus pais surtam porque é perigoso, não porque é perigoso para uma menina

E o gênero de Moana é quase incidental. Seu status como uma futura líder não é questionado. Quando ela anseia por aventura no mar aberto, seus pais surtam porque é perigoso, não porque é perigoso para uma menina. Shurer disse que uma versão anterior do roteiro apresentava Moana enfrentando obstáculos relacionados ao gênero, mas “logo pensamos que não era disso que queríamos que a história falasse”.

Resistindo às expectativas físicas para a personagem, Amy Lawson Smeed, a primeira mulher codiretora de animação em um filme da Disney, deu foco ao aspecto atlético de Moana. Smeed não estava disponível para uma entrevista com o BuzzFeed News, mas ela disse ao "Detroit Free Press" que ela orientou os animadores a fazer o estilo de corrida da personagem em particular “mais atlético” e “mais confiante”. A certa altura, quando Moana agarra o enorme semideus Maui pela orelha e assobia “você não é meu herói”, seu forte bíceps se contrai.

Vindo de um estúdio que, tão recentemente quanto "Frozen", de 2013, não conseguia conceber uma heroína princesa sem algum tipo de trama relacionada a casamento e uma cintura minúscula, Moana é monumental.

Apesar disso, Clements ainda tinha o impulso de definir Moana contra heroínas Disney do passado.

“Nós vimos [essa história] como uma jornada do herói, uma história de rito de maturidade, em uma tradição diferente das histórias de princesas,” disse ela à "Time". A afirmação não é apenas um clichê mas, a essa altura, redutiva. Em 2013, Kristen Bell afirmou que Anna, sua personagem desastrada em "Frozen", era a “princesa anti-princesa”. Ela prosseguiu, descrevendo Anna como “a garota que fala rápido demais, que fala antes de pensar, que não é graciosa, mas é realmente aventureira e eternamente otimista.” Personagens femininas já foram tão rotuladas que ser desastrada se tornou sinônimo de subversão.

O que realmente mudou ao longo do tempo não é que cada princesa rejeitou tudo o que limitava as princesas que vieram antes, mas que, começando com Ariel, todas as princesas pareceram mais humanas, em parte porque foram criadas por um número maior de mulheres reais.

Ariel, Bela, Jasmine, Pocahontas, Mulan, Tiana, Rapunzel, Merida, Anna, Elsa e Moana são todas distintas. Não há antiprincesa porque não há um jeito único de ser princesa, e não há um há quase 30 anos. Cada personagem imperfeito ganhou uma humanidade mais profunda devido ao trabalho de mulheres nos bastidores.

Moana é forte, inteligente, corajosa e única não apesar de suas colegas princesas, mas por causa delas – e das mulheres que exigiram mais.●

Este post foi traduzido do inglês.


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