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É por isto que muitas mulheres sabiam dos boatos de assédio sexual sobre Harvey Weinstein

Para as mulheres, saber sobre homens abusivos — seja por meio de boatos ou "redes de fofoca" — não é algo fútil ou divertido. É uma ferramenta de sobrevivência.

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As mulheres costumam dizer que não sabem precisamente quando, ou como, perceberam que um homem é um criminoso sexual. Geralmente, fomos alertadas por alguém — quase sempre outra mulher —, explícita e implicitamente, para ter cuidado com aquele homem. Para não ir sozinha a uma reunião com ele. Para convidar outra pessoa para o almoço. Para nunca ficar até tarde no trabalho, sair para beber ou enviar um e-mail a ele que possa passar a ideia errada. Essas “redes” são o que as mulheres utilizam quando os métodos normais de proteção — reclamações ao RH, confronto direto, a polícia — simplesmente não funcionam, seja porque o homem em questão tem muito poder/influência ou porque o ônus da prova, quando o assunto é assédio sexual, é muito pesado e o preço de se tornar uma acusadora é muito alto.

Nos últimos 30 anos, milhares de mulheres entraram e saíram do círculo de influência de Harvey Weinstein, o famoso produtor cujo histórico como (suposto) assediador sexual em série veio a público na semana passada. As mulheres em seu círculo, fossem elas assistentes, garçonetes, leitoras de roteiros ou maquiadoras, sabiam da fama de Harvey, por reputação ou por experiência própria. Mas milhares de outras mulheres, mulheres sem nenhuma conexão com Hollywood, Nova York ou Weinstein, também sabiam dos rumores. Lemos os relatos sobre seu temperamento e também ouvimos histórias que afirmavam que ele era, francamente, meio nojento: o tipo de cara que promete torná-la uma estrela em troca de sexo e que se utilizava da sua influência na indústria do cinema para se assegurar de que seus atos nunca seriam revelados.

Ele era uma versão maior e mais poderosa do tipo de cara que muitas de nós encontramos em nossas próprias vidas. E sabíamos sobre seu comportamento por meio de uma fonte de conhecimento bastante feminina e muito ridicularizada: fofocas sobre celebridades.


Durante o ápice da influência de Weinstein — e de seus supostos abusos —, no final dos anos 90, fofocas sobre “um magnata do cinema muito influente” e seus relacionamentos abusivos com mulheres em posição de inferioridade corriam em grupos de discussões em sites como alt.showbiz.gossip. E também apareceram, durante anos, em diversas colunas de fofocas, com os escândalos descritos sem mencionar o nome das celebridades envolvidas, apenas com pistas sobre suas identidades. Os colunistas não identificavam as partes para evitar processos, mas quem comentava sobre o artigo geralmente o fazia.

Artigos e colunas, alguns mais explícitos do que outros, apareceram em sites especializados em fofocas dos EUA como The Defamer, Oh No They Didn’t, Celebitchy, Popbitch, Fametracker e Lainey Gossip, incluindo um dos mais infames, cujo título era “Casting Couch (Teste do Sofá, em tradução livre)”.

Os supostos abusos de Weinstein foram motivo de piada na série "30 Rock" e inspiração para uma das tramas na série "Entourage" (mas sem dar nome aos bois). Era algo notório e velado. Oficialmente, ninguém sabia sobre esses abusos, pelo menos não o suficiente para fazer algo a respeito. Mas, ao mesmo tempo, todo mundo sabia. Era algo tão notório — no ramo e entre qualquer um que acompanhasse as fofocas de celebridades nos anos 2000 — que parecia ser algo normal, ou pelo menos normalizado. Uma pequena parte de uma grande indústria misógina, algo facilitado por aqueles ao seu redor, por medo ou anseio por algum tipo de reciprocidade.

Ouvi falar de Weinstein, como indivíduo, por meio dos perfis na revista "Entertainment Weekly", mas só fui realmente conhecê-lo após ler o livro "Down and Dirty Pictures" (Filmes Crus, em tradução livre), de Peter Biskind — um relato sobre a ascensão da Miramax e dos filmes independentes. É um relato histórico, mas também está repleto de fofocas. Não há nada explícito sobre Weinstein, sexo e mulheres. Porém, se você ler nas entrelinhas, encontrará muita coisa.

E é assim que nascem as fofocas: por meio de piadas, insinuações e artigos que não identificam as partes envolvidas, mas revelam o que ninguém diz. Desde os primórdios de Hollywood, colunistas de fofoca já embutiam em seus textos dicas de quais estrelas eram gays, quem estava traindo quem, quais casamentos eram de fachada e quem havia passado pelo “teste do sofá”. No ramo, esse tipo de informação era geralmente utilizada para controlar as estrelas, mantê-las na linha. Para quem era de fora, era entretenimento (escândalo!), mas também servia de alento: assim como nós, as estrelas de Hollywood também são gays.

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As mulheres não sentiram alívio ao saber dos supostos assédios de Weinstein. Mas as fofocas que o seguiam se tornaram outra forma de conhecimento, uma moeda na economia de como as mulheres se protegem e protegem as outras. E quando a fofoca é validada pela imprensa, acaba apenas confirmando a triste realidade que gradualmente percebemos, após anos de fofocas e experiência pessoal: todos os tipos de homens, em todos os tipos de posição e de todas as ideologias, adquirem e mantêm o seu poder explorando a falta de poder feminino. Seja ele Donald Trump, Roger Ailes, Harvey Weinstein ou os inúmeros “falsos feministas”, a mensagem continua a mesma: confiamos nos homens por nossa conta e risco.

Pode parecer horrível, mas é difícil, dadas as evidências, rebater esse fato. É óbvio que nem todos os homens são assediadores e abusadores. Há homens bons. Muitas de nós temos parentes ou companheiros bons. Mas há homens suficientes como Weinstein e Ailes, jovens e velhos, liberais e conservadores, que fazem com que nos sintamos como objetos, "sujas" ou que não temos controle nenhum em nosso ambiente de trabalho ou sala de aula, que podem e vão destruir nossas vidas — e por isso nos tornamos dependentes de modos não oficiais de comunicação para nos proteger. Por isso, não surpreende que tantos homens ridicularizem e desdenhem de fofocas: é a nossa arma mais eficaz contra os seus abusos.

Na esteira das revelações sobre Weinstein, muitos homens — incluindo jornalistas que estão por dentro de tudo — expressaram surpresa, principalmente com relação à alusão de que todo mundo já sabia disso. Uma manchete do site "The Onion", um site satírico norte-americano, exemplificou isso perfeitamente — “‘How Could Harvey Weinstein Get Away With This?’ Asks Man Currently Ignoring Sexual Misconduct of 17 Separate Coworkers, Friends, Acquaintances (‘Como Harvey Weistein Conseguiu Fazer Isso Durante Tanto Tempo?’ É O Que Pergunta Um Homem Que Atualmente Finge Ignorar O Assédio Sexual Cometido Por 17 Colegas, Amigos e Conhecidos Diferentes, em tradução livre)”.

Em outras palavras, não saber é parte do privilégio masculino. Para as mulheres, esse conhecimento, obtido por meio de boatos ou redes de fofocas, não é fútil ou divertido. É uma ferramenta de sobrevivência. E até que os homens assumam que devem não apenas saber, mas fazer algo com base nesse conhecimento — censurando abertamente e desmantelando as hierarquias de poder que protegem esse tipo de conduta —, esse continuará sendo um fardo que as mulheres têm de carregar. ●

Este post foi traduzido do inglês.


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Anne Helen Petersen is a senior culture writer for BuzzFeed News. Petersen has a Ph.D. from the University Of Texas and wrote her dissertation on the gossip industry.

Contact Anne Helen Petersen at anne.helen.petersen@buzzfeed.com.

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