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"Logan" mudará a forma como você encara a violência em filmes de super-heróis

A última aparição de Hugh Jackman como Wolverine é uma ótima e sangrenta reflexão sobre 17 anos de uma franquia desgastada. *Aviso: este post contém spoilers*.

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"Logan" começa com uma briga. Afinal, é por brigar que o personagem deste filme é conhecido, mesmo que já esteja com os cabelos grisalhos. Outros X-Men são famosos por ler mentes, mudar de forma ou controlar o clima, mas Logan (ou Wolverine) foi concebido para outro fim. Com garras de adamantium, um esqueleto indestrutível e um processo de cura acelerada, ele tem a melhor forma para distribuir e suportar a dor. Ele foi pensado para brigar.

Hugh Jackman já interpretou Logan em nove filmes da franquia X-Men, e seu personagem entra em brigas na maioria deles. Então não há nada de inesperado no início de "Logan": Wolverine acorda com alguns homens tentando roubar os pneus do veículo em que ele estava dormindo e reage. O que é surpreendente, isso sim, é quando Logan atravessa suas garras no crânio de um dos homens e ouvimos o som de uma matéria orgânica cedendo à força do metal. É um momento desorientador. Nós sabemos que Logan já matou dúzias e dúzias de pessoas, mas as mortes nunca tinham sido mostradas dessa forma, de uma forma que de fato fizesse que nós a sentíssemos.

"Logan", dirigido por James Mangold e escrito por ele, Scott Frank e Michael Green, é uma elegia ao Wolverine que Jackman interpreta há 17 anos e que está finalmente se aposentando. Mas, mais do que isso, é uma reflexão sobre a forma que a violência tem sido retratada na franquia e em filmes de super-herói.

Ao longo dos anos, Logan tornou-se um emblema de como é possível fazer um filme de violência com classificação etária de 14 anos — as mortes podem se acumular, desde que os resultados do massacre não sejam mostrados.

E essa foi a estratégia de Hollywood em muitos casos: a brutalidade é segura para o consumo de massa, desde que suas repercussões explícitas sejam omitidas. E qual símbolo melhor do que Logan? Alguém que despedaçou dezenas de personagens, mas que era o único mostrado sangrando, já que suas feridas rapidamente se fechariam?

No entanto, em "Logan", a personificação de uma força livre de consequências abruptamente encara as consequências que sempre conseguiu evitar. Os membros mutilados e os corpos eviscerados deixam de ser um espetáculo e se revelam como o que sempre foram: uma carnificina.

O filme se passa nos Estados Unidos de 2029, no qual cada amado personagem do passado está morto ou morrendo — incluindo o próprio Logan, que não está se curando como costumava e que agora bebe para aliviar sua dor enquanto trabalha para juntar dinheiro suficiente para comprar um barco e fugir.

O futuro em que se passa "Logan" é um no qual corporações tem o controle das terras, trogloditas armados patrulham a fronteira e corpos de mulheres mexicanas são usados em experimentos científicos. Tudo o que restou para os novos personagens do filme é fugir.

Logan tem o debilitado Charles Xavier (Patrick Steward), agora com noventa e tantos anos, escondido do outro lado da fronteira cuidando de um colega mutante sensível ao Sol chamado Caliban (Stephen Merchant). O trio, pelo menos, não é mais perseguido como bichos-papões. Por razões que ninguém entende, nenhum mutante nasceu por mais de duas décadas e, assim, o mundo se voltou para outras preocupações.

Mas isso não quer dizer que mutantes não possam ser criados. E é aí que entram a jovem seletivamente muda Laura (Dafne Keen), sua frenética cuidadora Gabriela (Elizabeth Rodriguez) e o mercenário Pierce (Boyd Holbrook, inesperadamente divertido no papel), que ficará no encalço de Logan.

Laura, que fica sob a custódia relutante de Logan, tem algumas habilidades que o espectador reconhecerá e que são revelados na melhor cena de ação do filme. Laura grita quando estripa homens armados, como uma criança no meio de uma birra, mas também como um animal lutando por sua sobrevivência.

Mas enquanto Laura tenta sobreviver com todas as suas forças, Logan considera a morte. Com um toque de Faroeste, "Logan" faz referência ao clássico de 1953 "Os Brutos Também Amam", que também aborda a amizade entre uma criança e um assassino que anseia por paz. Só que Laura não é uma inocente e, neste universo, não existe a esperança de deixar a violência para trás. A violência é uma constante com a qual todos estão conformados, amigos e inimigos.

Em "Logan" não é o Velho Oeste que acabou — é os Estados Unidos. E o futuro trágico não soa como uma paródia, mas algo razoável e reconhecível. Os personagens deste mundo lidam com uma decadência em direção ao apocalipse que não tem nada a ver com super-vilões, mas com um ambiente que sistematicamente só piora.

E isso não é algo que você possa combater com garras afiadas.

Não que Logan e Laura tentem, pois todo o caos que eles passam serve apenas para seu propósito de fuga. E isso é verdade até na batalha final.

Batalhas finais geralmente sugerem um encerramento ao derrotar um inimigo e fazer o universo voltar ao normal. No entanto, em "Logan", nada fará o universo voltar ao normal, nem esta batalha, nem qualquer outra.

A violência do filme toca não só por ser gráfica, explícita e feia, mas porque parece algo indissociável da existência — algo que não pode ser abandonado, não importa o quanto gostariam os personagens.

Em suma, "Logan" acerta ao fazer algo que pouco interessa ao gênero do qual faz parte: em mostrar a capacidade e inclinação para a violência como um defeito com o qual seus personagens sofrem. Ao fazer isso, o filme dá a Wolverine algo que parecia que ele nunca conseguiria — um final apropriado.

Este post foi traduzido do inglês.


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