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Marcos Chamizo / BuzzFeed

Eu sou gay e o Instagram está arruinando minha vida

Eu costumava me comparar com os modelos em revistas. Agora o Instagram é a revista.

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Como todo mundo, eu gosto de coisas bonitas. Cada um de nós tem uma concepção um pouco diferente de beleza, especialmente quando se trata do corpo humano: nós podemos discordar sobre sardas, uma barba ou a ausência de uma, ou uma barriga um pouco mais saliente do que a média. Mas, apesar de todos nós termos nossas diferentes preferências, cada um de nós tem um padrão específico de beleza em mente que gostaria de alcançar. Um que está, claro, fora do nosso alcance para sempre. Ninguém tem sua própria imagem como o ideal — ou pelo menos é isso que eu gostaria de acreditar.

É por isso que eu não consigo deixar de mergulhar no prazer culpado de admirar a beleza dos outros. Eu costumava fazer isso casualmente, folheando revistas de moda masculina, decidindo qual corpo eu pediria se um gênio aparecesse na minha sala, pronto para conceder meu desejo. Eu era feliz olhando para David Gandy posando em um traje de banho; esse simples ato mais do que satisfazia minhas necessidades. Mas, então, veio o Instagram e mandou tudo à merda, normalizando minha exposição à beleza e transformando um certo tipo de "gostosura" que costumava parecer incomum, em algo comum. Porque, porra, há muita gente bonita no mundo.

É aí que começa o problema para alguém como eu: um rapaz gay na casa dos trinta começando a sentir a pressão que a sociedade — especialmente em um grupo social que valoriza muito as aparências — tem sobre minha autoimagem. Porque de repente eu sou o único que não é mais "normal". Minhas dobras de gordura não são "normais" porque eu não estou comparando-as com a barriga perfeitamente esculpida de um modelo muito famoso, mas a algo muito mais próximo: a barriga perfeitamente esculpida do meu vizinho do terceiro andar, que eu ~por acaso~ achei no Instagram.

O Instagram veio e mandou tudo à merda, transformando um certo tipo de "gostosura" que costumava parecer incomum, em algo comum.

Meu vizinho é um cara normal. Ele tem a minha idade, tem amigos, um namorado — que também não é ninguém em especial — e um emprego que paga mais ou menos o que eu ganho. Ele é tremendamente normal. No entanto, ele realmente atingiu um nível de beleza que eu só posso querer, e isso, é claro, me afeta.

O abdômen do meu vizinho provoca a pergunta: isso poderia ter algo a ver com a minha idade? Quando eu tinha meus vinte e poucos anos, pronto para conquistar o mundo — eu ainda não sabia que ele ia me conquistar — o meu corpo real era imensamente diferente do que eu imaginava. Eu olhava para o meu corpo naquela época, da maneira como você olha para o seu parceiro nas fases iniciais de um relacionamento — como se fosse a pessoa mais linda que você já viu. Eu tinha que me olhar no espelho para perceber que não, a pele perfeita e os braços tonificados que eu estava exibindo na rua ao ritmo da música no meu iPhone estavam, na verdade, apenas na minha cabeça. E foi assim por muitos anos, antes de eu sequer imaginar uma timeline no Instagram que filtraria imagens de rapazes "na academia", "aqui sofrendo", exibindo corpos que combinavam com o tipo que eu tinha idealizado.

Naqueles anos, eu saía na frente sempre que eu me comparava com os outros, porque eu dava as cartas. Meu corpo e eu fizemos longas caminhadas juntos comendo sorvete. Nós compartilhamos jantares com espaguete, como A Dama e o Vagabundo. Nós estávamos apaixonados. Nós cuidamos de tudo o que podíamos um para o outro. Nossas brigas sempre terminavam com um abraço, e havia sempre um tapinha nas costas por um trabalho bem feito.


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Como dizem, a ignorância é uma bênção. Minha nova percepção de toda a beleza do mundo realçou todos os meus defeitos com marcador vermelho. O pior de tudo, ao se tornar a versão dolorosamente real e intrusa da revista de moda masculina, o Instagram me roubou o ato inocente de olhar para a foto de David Gandy. Tiraram uma das coisas mais importantes que aquele ritual mantinha para mim: aspiração. Um tempo atrás — não tanto tempo, para ser sincero — eu queria ser David Gandy. Eu queria tudo o que ser David Gandy implicava: eu queria aquele corpo, eu queria aquele rosto, sua conta corrente, a atenção que ele recebia. Eu queria o pacote completo, em todos os aspectos, de ser David Gandy. Mas agora, apesar de sua barriga invejável, eu não quero ser meu vizinho. Por que eu deveria querer? Ele é o mesmo que eu, falho. Ele canta muito mal no chuveiro — eu sou muito melhor. A única coisa que eu invejo é sua aparência. E essa compreensão revelou que minha relação outrora saudável com meu corpo agora está mais como Peggy e Al Bundy em Um Amor de Família: nós estamos juntos para sempre, mas odiamos um ao outro.

Indevidamente, a chegada deste aplicativo simples, junto com algumas mudanças de vida que influenciaram como eu cuidei do meu corpo — me estabelecer com um parceiro sério, começar um novo emprego que me fez ficar sentado 10 horas por dia e deixou pouco tempo para me exercitar, em uma nova cidade onde eu tinha que pegar o metrô em vez de andar e sair para comer e beber com mais frequência — destruíram completamente um dos relacionamentos mais importantes da minha vida. Agora meu corpo e eu estamos com inveja dos casais saudáveis ("Você viu? O vizinho foi para a academia hoje também, e você não levanta desse sofá desde 1997"). Nós fazemos falsas promessas, dizendo que tudo vai voltar ao que era antes. Sentimos tanta vergonha.

Eu sei que você está pensando que eu poderia simplesmente ter parado de seguir essas pessoas. Que eu poderia simplesmente ter desinstalado o aplicativo e vivido feliz na ignorância. Que essas pessoas que fazem eu me sentir mal sobre o meu corpo estão procurando, de alguma forma, validação na forma de curtidas que eu gostaria de poder dar a mim mesmo. Que eu sou um chorão que simplesmente não é capaz de se adaptar à vida moderna e que minha relação com meu corpo não poderia ter sido tão boa se um aplicativo de fotos conseguiu abalar seus alicerces.

Você não estaria errado. Como quando você está sentado em uma caixa de pólvora, tudo é muito calmo, até que deixa de ser. Talvez essa timeline do Instagram destacando meus defeitos fosse apenas a faísca que me fez perceber que eu estava me pressionando. Talvez o relacionamento que tive com o meu corpo, que eu anteriormente considerava saudável, nunca tenha sido de verdade, e eu simplesmente tenha oscilado de um extremo ao outro. Porque, na realidade, não era minha timeline destacando — era eu.

Eu vou continuar xingando toda vez que eu tiver que curtir um daqueles deuses gregos esculpidos em mármore no aplicativo. E vou continuar olhando para a minha barriga e me sentindo um pouco culpado de ter pago um ano de academia, quando eu nunca sequer coloquei os pés lá. Mas eu vou tentar parar de culpar os outros pelo fato de que eu não posso mais me imaginar com os braços de aço que me faltam. Porque eu não os tenho. E isso deveria ser perfeitamente normal.


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