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Pai que perdeu o filho na boate Kiss é processado por promotor

Paulo Carvalho está sendo acusado de calúnia, junto com outros dos pais, por promotores de Santa Maria (RS) que se sentiram ofendidos com reclamações e protestos sobre a tragédia.

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Este é Paulo Carvalho, 62, um dos pais que perdeu os filhos no incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS). Ele está sendo processado por dizer que os promotores da cidade não fizeram tudo o que poderiam fazer para evitar a tragédia.

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Paulo, que é diretor jurídico da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, era pai de Rafael Paulo Nunes de Carvalho, 32. Em entrevista ao BuzzFeed Brasil ele disse que está sendo denunciado por causa de um artigo publicado nos principais jornais de Santa Maria. "Não basta perder a vida de filhos, ainda precisam que nós paguemos por isso".

As denúncias foram motivadas por representações dos promotores Joel Dutra e Maurício Trevisan, de Santa Maria, que se sentiram ofendidos e acusados injustamente de prevaricação (crime cometido por funcionário público quando este deixa de fazer seu trabalho).

"Mas estou em boa companhia: a de pais que não se calaram desde que o Ministério Público pediu o arquivamento de todas as acusações feitas pela polícia por improbidade administrativa", diz Paulo.

O incêndio aconteceu em janeiro de 2013 e matou 242 pessoas.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul confirmou por meio de sua assessoria ao BuzzFeed Brasil que a denúncia foi feita. Há ainda dois outros pais que estão sendo processados por motivos semelhantes.

Apesar de dizer que a denúncia existe, o órgão não deu maiores detalhes do conteúdo do processo.

A jornalista gaúcha Ananda Müller, que cobriu a tragédia na época, fez um post no Facebook para lamentar o caso e se disse muito triste. "Alguém jogou ácido no meu coração", escreveu.

Facebook: ananda.muller1

"Pais de crianças mortas como insetos numa ratoeira humana serão acusados por terem exposto sua dor em um cartaz. O desespero de ter os filhos assassinados em uma das maiores tragédia do gênero no mundo será punida com a soberba de gente sem alma. Alguém jogou ácido no meu coração", escreveu Ananda.

A jornalista disse que não costuma falar sobre o que viveu naquele dia a todo instante por causa da dificuldade em suportar as lembranças daquela madrugada. "Por horas a fio relatei as imagens mais horrendas que se pode supor: jovens, empilhados como sacos de batata, eram retirados de uma boate incendiada. Todos mortos. Jovens lindos, esperançosos, com tudo pela frente".

Paulo deixou um comentário no post agradecendo o apoio. "Obrigado pela solidariedade. A dor é para sempre, mas a paz que poderíamos ter... É barrada e estrangula as nossas mentes", escreveu.

Os outros pais estão sendo processados por colarem cartazes em protesto contra o promotor Ricardo Lozza na fachada do prédio onde funcionava a Kiss.

http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/
http://diariodesantamaria.clicrbs.com.br/

O presidente da Associação dos Familiares das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Sérgio da Silva, e o presidente do Movimento Santa Maria do Luto à Luta, Flávio José da Silva estão sendo acusados de calúnia e crime contra a honra.

Os cartazes exibiam uma foto do promotor com a frase: "O Ministério Público e seus Promotores também sabiam que a boate estava funcionando de forma irregular". Eles devem comparecer a uma audiência no início de outubro.

Em 2013, um dos sócios da boate Kiss pediu apuração da responsabilidade do promotor Ricardo Lozza no incêndio. A alegação citava que, em 2011, a boate Kiss já apresentava irregularidades e poderia ter sido interditada pelo Ministério Público. A solicitação foi arquivada.

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