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Jovens negros relatam racismo de motoristas de Uber e 99

"Você chama, aí o motorista vê a sua foto. Geralmente, quando não rejeita a viagem, demora para vir — fica parado ali até você cancelar. Quando te vê na rua, vai embora com a sua viagem."

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As plataformas são novas; o problema, não. Jovens negros relatam casos de racismo com motoristas que trabalham para aplicativos de transporte, como a Uber e a 99.

"É um modus operandi", conta o consultor Hugo Gama, 32, que durante a semana usa aplicativos para buscar a filha na escola.

"Você chama, aí o motorista vê a sua foto. Geralmente, quando não rejeita a viagem, demora para vir — fica parado ali até você cancelar. Quando te vê na rua, vai embora com a sua viagem."

Na última semana, aconteceu de novo. Irritado, Hugo reclamou no Facebook: "O Uber simplesmente olhou pra minha face, acelerou o carro e cancelou a viagem. Na porta da minha casa", ele escreveu.

"Mas obviamente isso é coisa da minha cabeça", finalizou o post, irônico.

Morador de Santo André, na região metropolitana de São Paulo, o consultor viaja diariamente a um município vizinho onde a filha estuda. Antes, Hugo costumava usar táxi, mas migrou para os aplicativos justamente porque não era sempre que os táxis paravam para ele na rua.

O problema, porém, persistiu. "Isso é humilhante", afirma Hugo. "Eu sou um cara negro, eu sou um cara alto, eu sou um cara forte. A desconfiança é quase diária, eu nunca estou tranquilo. É sempre assim: são questionamentos que eu nunca vi outras pessoas sofrerem", ele continua.

"Eu uso cartão de crédito também para a viagem não ser cancelada. Se é dinheiro, comigo, é certeza que o motorista vai cancelar", ele diz, acrescentando que já fez reclamações formais sobre o assunto:

"Já reclamei com a 99, não aconteceu nada. Absolutamente nada. No caso da 99, das três vezes que aconteceu, eu tinha o registro do taxista, com nome e carro. E não aconteceu nada. Quando finalmente respondiam, era a mesma resposta padrão: não temos provas suficientes, mas se você levar isso para frente, você pode levar porque as situações são muito subjetivas."

Em nota, a empresa disse que "repudia qualquer tipo de discriminação" e incentiva seus usuários a reportarem episódios de racismo, que podem resultar na expulsão do motorista (leia a íntegra ao final deste post).

No ano passado, a empresa divulgou uma pesquisa com 10 mil usuários em que 46% disseram já ter sido alvo de racismo enquanto usavam o serviço. Em entrevista aos pesquisadores, uma motorista do aplicativo, Ester Neves, afirmou: "Eu já passei por várias situações onde o cliente pede o táxi pelo aplicativo, vê minha foto e cancela a corrida consecutivas vezes. Infelizmente, isso faz parte da nossa realidade."

A experiência com a Uber que o estudante e produtor de festas Artur Santoro, 20, relatou em seu Facebook se encaixa no "modus operandi" que Hugo descreveu: o motorista chegou, viu o passageiro e foi embora.

Mas Artur, que é gay, ficou na dúvida se foi racismo ou homofobia. "Sou negro e sou viado. Eu trabalho montado, bem viado, mesmo porque a gente gosta de dar close", ele conta.

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Na semana passada, Artur estava na saída de uma festa em que trabalhou. Pediu um Uber para uma amiga, porque o celular dela não estava funcionando.

Quando o motorista chegou, com o vidro do carro abaixado, Artur se identificou como o passageiro. Foi aí que aconteceu. O motorista continuou a dirigir lentamente, abaixou o vidro devagar e foi embora. A amiga de Artur ficou sem carro, e ele ficou perplexo. "Não foi uma leitura só minha", afirma, ressaltando que outras cinco pessoas presenciaram a cena.

E também não foi a primeira vez que algo do tipo aconteceu, segundo ele próprio conta. Artur já reclamou com a Uber e, conforme diz, a empresa chegou a dar R$ 20 em créditos de viagens. "É como se estivessem dizendo: 'Foi mal pelo vacilo'", afirma o produtor, que ficou insatisfeito com a resposta.

Em nota, a Uber ressaltou que "é difícil comentar casos específicos", mas disse que "qualquer tipo de relato relacionado a racismo, feito no próprio app, é levado muito a sério." A empresa afirmou ainda que motoristas denunciados por usuários por atitudes racistas são excluídos da plataforma (leia a íntegra ao final deste post).

É possível encontrar outros casos do tipo, com pequenas variações. A estudante Lenize Almeida, 27, é uma das vítimas que reclamou no Twitter.

Ela costuma usar carros da Uber para buscar na escola o irmãozinho de seu noivo, que é branco. Numa dessas ocasiões, o motorista perguntou — várias vezes — se Lenize era babá da criança.

"Eu fiquei sem saber o que fazer, me senti impotente", ela contou ao BuzzFeed News. "Cheguei a questionar o motorista sobre a insistência da pergunta", afirma.

A criança, enquanto isso, não entendeu o que estava acontecendo. E aí, segundo Lenize, o motorista mudou de assunto: "Disse que tinha me confundindo com outra menina 'morena' que ele buscou ali."

A estudante afirma que, antes do episódio, não tinha passado por situações semelhantes. "Eu sempre converso bastante com os motoristas, às vezes até sobre assuntos pessoais", ela diz. "E, diretamente, nunca tinha acontecido algo do tipo."

Leia a íntegra da nota da 99.

A 99 repudia qualquer tipo de discriminação. A orientação aos passageiros e motoristas é denunciar qualquer ato discriminatório por meio do aplicativo ou da central de atendimento 0800-888-8999. Assim, a 99 tomará as providências cabíveis, incluindo a possibilidade de bloquear o acesso ao aplicativo.

Leia a íntegra da nota da Uber.

"A Uber se orgulha de oferecer transporte eficiente e acessível para todos — ao mesmo tempo em que oferece também uma oportunidade de geração de renda democrática, independente de credo, etnia, orientação sexual ou identidade de gênero (sendo a primeira empresa de ridesharing que permite nome social na plataforma).

É difícil comentar casos específicos. No entanto, qualquer tipo de relato relacionado a racismo, feito no próprio app, é levado muito a sério. Motoristas parceiros ou usuários que apresentarem comportamento racista são desligados imediatamente da plataforma.

Gostaríamos, inclusive, que vocês dividissem esses casos conosco para que seja possível investigá-los."

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Alexandre Aragão é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ele pelo email alexandre.aragao@buzzfeed.com

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