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Hora a hora, como a execução de Marielle virou um escândalo global e mobilizou o Brasil

Em menos de 24 horas, o assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes passou de apenas um dos tantos casos de homicídio a mão armada no Rio para uma convocação que envolveu milhões na internet e centenas de milhares nas ruas.

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Em menos de 24 horas, a execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, na quarta (14), passou de apenas um dos tantos casos de assassinato a mão armada no Rio — cuja segurança está sob intervenção federal — a uma mobilização que envolveu milhões nas redes sociais e centenas de milhares nas ruas.

O BuzzFeed News reconstrói hora a hora, no relato abaixo, como o crime que vitimou Marielle e Anderson convocou a sociedade brasileira e se tornou um escândalo de proporções mundiais.

Quarta-feira (14), 18h.

Marielle vai a debate na Casa das Pretas, na Lapa, centro do Rio.

O vídeo original, que foi transmitido na página da vereadora, tem 1 hora e 38 minutos de duração. O tema do debate era "jovens negras movendo as estruturas" — e Marielle falou com propriedade sobre o assunto.

Quarta (14), por volta das 21h.

Marielle deixa o evento junto com Anderson e a assessora Fernanda Chaves. Imagens de câmeras de segurança mostram que eles já estavam sendo seguidos, segundo o jornal O Globo.

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A foto acima mostra o carro em que as vítimas estavam. Todos os tiros foram disparados na direção da janela traseira direita, onde Marielle estava sentada. O crime ocorreu na rua João Paulo 1º, a quatro quilômetros da rua dos Inválidos, onde fica a Casa das Pretas.

A polícia suspeita que os criminosos seguiram o carro de Marielle por todo o trajeto e, por isso, sabiam em que assento a vereadora estava sentada. Ainda de acordo com os investigadores, ela não tinha o hábito de sentar no banco traseiro.

Quarta (14), após as 22h.

Logo depois do crime, a assessora de Marielle, ainda em choque, pediu socorro ao marido, segundo a Folha de S.Paulo. Relatos sobre o crime começam a emergir na internet e, a partir das 22h29 — com minutos de diferença —, os jornais O Globo, Extra e O Dia publicam a notícia.

Às 23h08, o PSOL divulga nota confirmando a morte de Marielle.

Estavávamos eu e amigos num bar na Joaquim Palhares a cerca de 30m de onde Marielle foi assassinada. Alguns ouviram disparos, outros, nem isso. O que se pôde ver: os tiros saíram de um carro branco, que fugiu em direção ao São Carlos +

+ uma viatura da PM estava estacionada a pouquíssimos metros de onde tudo aconteceu. Isso é apenas informação. Não posso dizer que os PMs presenciaram. Podem ter saído momentâneamente. Mas o fato é que minutos depois, um policial adentrou o bar pedindo um giz para marcar local.

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+ segundo os policiais, foram encontradas 9 cápsulas próximo ao carro

Madrugada de quinta-feira (15).

Artistas começam a se manifestar nas redes sociais, e pessoas se reúnem em vigília, primeiro no espaço Plínio de Arruda Sampaio, no centro do Rio, depois na própria Câmara Municipal.

A vereadora Marielle Franco foi executada no Rio enquanto milhares de brasileiros sonham com a igualdade, segurança e empatia. Que sua alma encontre a luz e que a força cresça dentro de cada um de nós pois, vivemos num mundo adoecido e não será fácil concluir nossas missões!

Tuíte da cantora Karol Conka, publicado à 1h26 de quinta-feira (15), horas após o crime.

A partir das 23h50, segundo análise da FGV (Fundação Getulio Vargas), o Twitter registra cerca de 590 mensagens por minuto sobre o assunto. O ritmo continuou intenso durante horas, como mostra o gráfico.

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Por volta da 1h, a Anistia Internacional publica nota, que viralizou, em que cobra "uma investigação imediata e rigorosa". Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública, coloca a Polícia Federal à disposição para apurar o crime.

A imprensa internacional noticia o assassinato. Uma reportagem do jornal The Guardian, publicada também nas primeiras horas do dia sob o título "Marielle Franco, vereadora e crítica da polícia, é executada no Rio", fica entre as mais lidas durante toda a quinta.

Manhã de quinta-feira (15).

As edições dos principais jornais daquele dia mostram que, num primeiro momento, a notícia teve destaque menor fora do Rio.

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Reprodução

A partir do canto superior esquerdo, em sentido horário, as capas de 15 de março dos seguintes jornais: Folha de S.Paulo, O Globo (RJ), O Estado de S. Paulo, Jornal do Commercio (PE), Extra (RJ) e Estado de Minas.

Por volta das 8h30 de Brasília, deputados de esquerda do Parlamento Europeu, em Bruxelas (Bélgica), cobram explicações para o crime e pedem que as negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia sejam temporariamente suspensas.

Denunciamos en el Parlamento Europeo el asesinato de la concejala brasileña Marielle Franco @PSOLOficial , activista por los Derechos humanos y defensora de las poblaciones oprimidas y discriminadas. #MarielleFrancoPresente https://t.co/aOPrsuqQBs

Autoridades de Brasília começam a se manifestar publicamente.

Antes das 10h, o presidente Michel Temer (MDB) se reúne com ministros em Brasília e envia Jungmann e o titular dos Direitos Humanos, Gustavo Rocha, ao Rio para acompanhar desdobramentos.

Após a reunião, Temer publica vídeo nas redes sociais em que classifica a morte de Marielle como "inaceitável, inadmissível, como todos os demais assassinatos que ocorreram no Rio de Janeiro".

O ministro @Raul_Jungmann estará no Rio de Janeiro para acompanhar as investigações sobre a morte da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson. Trata-se de um atentado ao estado de direito e à democracia. https://t.co/X6WwXVRjrX

Pouco antes das 11h, a hashtag #MariellePresente sobe aos trending topics brasileiros no Twitter. Manifestações sobre o crime tomam o Facebook e o Instagram. Atos em protesto são marcados para aquela tarde em 11 capitais do país.

A vigília na Câmara Municipal do Rio cresce de tamanho.

Ainda pela manhã, a Câmara dos Deputados promove uma sessão solene em homenagem à vereadora, com discursos emocionados principalmente de parlamentares da esquerda.

Veja este vídeo no YouTube

youtube.com

No início da tarde, por volta das 14h30, os caixões de Marielle e Anderson chegam à Câmara Municipal sob aplausos e forte comoção.

Às 17h, os primeiros manifestantes começam a se reunir no vão-livre do Masp, em São Paulo. Uma hora depois, um dos lados da avenida Paulista estava tomado por centenas de pessoas. Até à noite, milhares de pessoas fecharam a avenida e marcharam até o centro de São Paulo.

Às 18h, o corpo de Marielle foi enterrado no cemitério do Caju, no Rio. Cerca de 100 pessoas se despediram da vereadora, e a família pediu que não houvesse participação da imprensa.

Enquanto isso, na Cinelândia, dezenas de milhares de pessoas também se reuniam para marchar pela memória da ativista.

Às 20h30, o Jornal Nacional — que registrou 33,2 pontos de Ibope, o equivalente a 6,6 milhões de espectadores só na região metropolitana de São Paulo — dedicou mais de meia hora à cobertura do caso, incluindo entradas ao vivo do centro do Rio.

No primeiro intervalo do jornal, por volta das 21h, a Globo exibiu um vídeo em homenagem a Marielle que havia circulado durante o dia nas redes sociais. As imagens também foram para o Twitter da emissora.

#Respeito à vida. #MariellePresente #AndersonPresente https://t.co/AJqEFe8hkO

Manhã de sexta-feira (16).

A execução de Marielle domina as capas dos jornais.

Alexandre Aragão é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ele pelo email alexandre.aragao@buzzfeed.com

Contact Alexandre Aragão at alexandre.aragao@buzzfeed.com.

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