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Demissões na Empiricus fazem CEO e ex-funcionários lavarem roupa suja no Twitter

Uma analista demitida acusou a Empiricus de pressioná-la para recomendar, contra a própria vontade, a compra de papéis de uma construtora. Empresa diz que alegações são inverídicas e CEO afirmou que demitidos se "vitimizam".

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A Empiricus, empresa de análise de investimentos famosa por sua estratégia de marketing agressiva, demitiu nos últimos dias quatro de seus analistas mais conhecidos. Isso deu início a uma lavagem de roupa suja no Twitter e no Facebook.

Num dos pontos mais chocantes da discussão, uma das demitidas acusou a Empiricus de obrigá-la a incluir, contra a sua vontade, a recomendação de compra de ações de uma construtora.

A Empiricus vende assinaturas de newsletters, análises do mercado financeiro e sugestões de investimentos. Seus analistas também costumam usar as redes sociais para dar recomendações de papéis e fundos.

O analista Ricardo Schweitzer, que trabalhou até o final de fevereiro na Inversa Publicações — empresa que tem sócios em comum com a Empiricus —, publicou tuítes sobre o assunto.

"Lançar uma corretora [a Empiricus confirmou, em 2017, interesse na possibilidade de comprar ou montar uma corretora] depois de sete anos bradando que análise e corretagem não podem se misturar é dar um tapa na cara de cada assinante", escreveu Schweitzer.

Lançar uma corretora depois de sete anos bradando que análise e corretagem não podem se misturar é dar um tapa na cara de cada assinante. Teatro? Só se for tragédia grega. https://t.co/olFMqpbXjz

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Ele também publicou um email, omitindo quem o enviou, em que o interlocutor pede que o analista faça propaganda de um novo produto da Inversa, chamado Clube dos 5.

"A ideia é escrever dois ou três parágrafos convidando os seus assinantes para ver o documentário O Segredo de 5 Milhões", diz a mensagem. Antes da demissão, Ricardo se recusou a fazer a propaganda.

"Marink Martins convida você a integrar agora o Clube dos 5, para atingir R$ 5 milhões em cinco anos, ou até antes, com a estratégia formadora de milionários em Wall Street", diz um locutor no vídeo citado na mensagem.

Caio Mesquita, CEO da Empiricus, respondeu na mesma moeda — pelo Twitter. Sem citar nomes, ele escreveu: "Infelizmente a vitimização contaminou as novas gerações, enquanto caráter, lealdade e gratidão tornam-se cada vez mais raros".

"Temo pelo futuro", escreveu.

Infelizmente a vitimização contaminou as novas gerações, enquanto caráter, lealdade e gratidão tornam-se cada vez mais raros. Temo pelo futuro.

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Quando fui demitido do meu último emprego, em 2002, passei por um profundo processo de reflexão e auto avaliação. Tal processo foi fundamental para meu crescimento e sucesso profissional.

Sócio da Inversa Publicações, mas não da Empiricus, Pedro Cerize também foi ao Twitter abordar a polêmica e citou Schweitzer: "Ricardo já não escrevia o [relatório] Top Shot há alguns meses. Deixava a cargo de seu assistente", escreveu.

Já que me perguntaram? Ricardo já não escrevia o Top Shot há alguns meses. Deixava a cargo de seu assistente. Já organizava juntos com outros integrantes da @empiricus sua saída. Tentava de diversas formas criar “fatos”, como abaixo. E agora se coloca na posição de vítima. #TMJ https://t.co/C3K9rIah8l

Outra analista demitida da Empiricus, Ariane Gil, publicou um texto após sua saída em que deixava de recomendar a compra de ações da Tecnisa e afirma ter sido pressionada a falar dos papéis, também sem citar nomes de quem a teria pressionado.

"Este sempre foi um call um tanto controverso, acompanhado por gatilhos dubitáveis. Uma dor de cabeça desde agosto do ano passado. Não fosse pela espontânea e escabrosa pressão vinda de cima para adicionar o papel à carteira com imediatismo, certamente seria rechaçada pela carência de consistência dos fundamentos à época", ela escreveu.

Em nota, a empresa nega — leia a íntegra ao final do post.

Ainda que de forma provisória, para não deixa-los a ver navios, aqui vai um relatório com intuito de dar-lhes um update sobre um dos papéis que mais geraram controvérsia recentemente. #TCSA3 Sigo acompanhando as ações de perto. Continuem mandando sugestões de ativos para análise! https://t.co/cpN5TxPzYT

Marilia Fontes, que assinava uma das newsletters da Empiricus, publicou um texto no Facebook, mas sem críticas diretas à empresa. "Por conta das semanas finais da minha gravidez, não sei o quanto estarei online nas redes", ela escreveu.

Alguns dos analistas demitidos já haviam sido punidos pela Apimec, entidade que representa e faz a autorregulação da atividade de analistas e profissionais de investimentos no Brasil.

Os casos incluem desde oferecer "garantia de retorno", ao misturar recomendações de investimento com emails de marketing, até imprecisões que geravam risco à integridade de participantes do mercado. Na primeira dessas ações, também foi punido com suspensão de 30 dias Felipe Miranda, um dos principais sócios da Empiricus.

O BuzzFeed News entrou em contato com Schweitzer, Gil, Fontes e Bruce Barbosa (outro demitido), mas nenhum deles quis dar entrevista.

Em nota, a Empiricus culpou os demitidos pelo próprio desligamento, mas se recusou a dar detalhes: "Não comunicamos as causas das demissões dos funcionários por respeito a eles próprios. Quanto às alegações dos demitidos, elas são totalmente inverídicas".

Em um post no site da empresa, a Empiricus anunciou que o economista Alexandre Schwartsman substituirá Marilia Fontes nas análises sobre renda fixa.


Alexandre Aragão é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ele pelo email alexandre.aragao@buzzfeed.com

Contact Alexandre Aragão at alexandre.aragao@buzzfeed.com.

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