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Essas mulheres mostram que ainda temos muito a discutir sobre assédio

Pesquisa revelou que um terço dos brasileiros acredita que, em casos de estupro, a culpa é da vítima. Perguntamos a algumas mulheres as situações em que elas sentem mais medo.

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Um terço dos brasileiros acredita que, em casos de estupro, a culpa é da vítima. É o que revela pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, feita pelo Datafolha, divulgada hoje (21).

A partir dos dados, o BuzzFeed Brasil fez duas perguntas a mulheres nas ruas: "Em que situação você sente medo de assédio?" e "A roupa faz diferença?". Leia as respostas abaixo.

Geize Sales Silva, 33 anos: “Pensei: será que é a porcaria da minha roupa?"

Faz um ano, Geize largou o emprego porque não aguentava mais o assédio de três chefes. Com depressão, não teve nem energia para processa-los na Justiça.

O chefe dizia que ele era uma espécie de prefeito e ela uma “gostosa” que passava pela rua e que deveria acatar o seu assédio. “Na rua, você nunca mais vai ver o cara que mexeu com você, mas, no trabalho, você vai ver todo dia”, lamenta.

Geize chegou a pensar que o problema estava em seu corpo. Disse que queria ficar menor. “Emagreci seis quilos. Achava que era a minha bunda, que era grande. Mas era a safadeza deles. Hoje não abro meu coração”, conta ela.

Ana Paula de Jesus Passos, 35 anos: “Sou mulher. Sofro assédio praticamente desde que nasci."

A bartender Ana Paula lembra que o assédio não escolhe endereço. Já passou maus bocados dentro de casa, com um técnico de TV a cabo.

“Ele achou que eu ia transar por causa das minhas tatuagens, do meu cabelo azul”, conta ela, que ligou para a empresa e reclamou do funcionário.

“O que não é curto para um é curto para outro”, diz Ana Paula, mas ela admite que evita certas roupas em determinados ambientes. “Tem um lugar onde eu vou para jogar pingue-pongue que não dá para ir com minissaia”.

Alexandra Bastida, 24 anos: “Tem sempre um diretor fazendo gracinha com a gente."

A atriz de teatro Alexandra fala que no meio em que ela convive é muito comum as mulheres serem assediadas. Mas é na rua que moram os seus maiores medos. Ela costuma voltar sozinha para casa à noite: “Fico morrendo de medo”.

“Eu sei que a roupa não deveria fazer diferença. Mas a verdade é que eu não coloco roupa curta quando vou voltar para casa sozinha à noite”.

Bernadette Tilleti, 59 anos: “Quando a gente fica mais velha, tem menos medo do assédio, mas ainda tem."

A comerciante Bernadette não esconde a revolta com o resultado da pesquisa: “é um absurdo.” No primeiro momento, diz que não sente mais medo de assédio. Depois reflete: Tem, sim. Tem medo na rua, quando está sozinha, mas, sobretudo, no transporte público, no metrô.

O figurino, para ela, não deveria fazer diferença. Quando está com medo, explica, não tem importância que roupa ela está vestindo.

Sarah Vilela, 20 anos: “Infelizmente, eu tenho mais medo quando estou de roupa curta."

“Tenho medo todo dia, quando volto para casa, no trecho em que saio do metrô e chego em casa a pé”, conta a recepcionista Sarah, que não aguenta as cantadas que recebe no caminho.

“Eu uso shorts muito curtos. Eu gosto, mas tenho mais medo quando uso. Infelizmente. Não deveria ser assim”, diz ela. Sua mãe, Valquiria, completa: “Não deveria. A mulher deveria ser respeitada com qualquer roupa."

Alexandre Aragão é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ele pelo email alexandre.aragao@buzzfeed.com

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Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

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