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Prefeitura de SP quer tirar catadores do viaduto do Glicério, mas eles não estão a fim de sair

Cooperativas ocupam o local há mais de uma década e têm até ligações de luz e telefone legalizadas. Prefeitura argumenta que a retirada não será imediata e que o acúmulo de material reciclável no local pode causar incêndios.

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A Prefeitura de São Paulo determinou que as cooperativas de catadores de lixo que ocupam a área abaixo do viaduto do Glicério deixem o local, que ocupam há mais de uma década.

Apesar de os catadores possuírem luz e telefone legalizados, as gestões anteriores da prefeitura permitiram a ocupação do local, mas não a regularizaram por meio de um acordo formal.

Maria Aparecida Dias, presidente da Cooper Glicério
Alexandre Aragão / BuzzFeed

Maria Aparecida Dias, presidente da Cooper Glicério

A prefeitura notificou as cooperativas de que elas deveriam desocupar a área em 9 de março, dois dias após um incêndio em barracos montados em outra parte do viaduto terem causado a interdição temporária do local.

Notificação enviada pela prefeitura à Cooper Glicério.
Reprodução / BuzzFeed

Notificação enviada pela prefeitura à Cooper Glicério.

O argumento é que o acúmulo de material reciclável, como papelão, é perigoso no local, porque pode causar novos incêndios.

Cerca de 130 catadores atuam nas cooperativas do viaduto, e cada um deles recolhe aproximadamente 5 toneladas de material por mês, segundo Maria Aparecida Dias, presidente da Cooper Glicério, fundada em 2004.

A postura da prefeitura causou surpresa entre os trabalhadores, explica Maria Aparecida, porque as cooperativas não foram consultadas antes de receberem as notificações.

"A gente ficou apreensivo, né?", disse a catadora à reportagem, mostrando a notificação recebida pelo correio.

Em nota, a prefeitura disse que "não haverá nem retirada nem fechamento imediato das cooperativas instaladas sob o viaduto". Leia a íntegra ao final deste post.

"Chegaram aqui querendo já lacrar a cooperativa, mas a gente ficou aqui dentro e disse que eles só fechariam o portão com a gente dentro", afirmou, em entrevista ao BuzzFeed Brasil.

Os catadores recorreram da decisão da prefeitura, com um processo administrativo.

No sábado (1º), quando policiais foram ao local, o coletivo Pimp My Carroça — que busca dar visibilidade a problemas de catadores em São Paulo — publicou um vídeo no Facebook em que cooperados criticam a ação.

Na terça (4), a prefeitura realizou uma reunião na Prefeitura Regional da Sé com os catadores, a fim de abrir diálogo.

A gestão João Doria (PSDB) quer que as cooperativas encontrem outros locais para ocuparem. Segundo Maria Aparecida, os catadores resistem à mudança porque a maior parte deles mora nas proximidades do viaduto do Glicério. "Dos 37 catadores aqui da cooperativa, só três não moram por aqui", ela explica.

No encontro de terça (4), ficou definido que as cooperativas irão apresentar alternativas de terrenos da prefeitura para ocuparem, de preferência na mesma região da cidade.

Caso as alternativas apresentadas fiquem localizadas longe do centro, a Prefeitura Regional Sé se comprometeu a "dar apoio" no transporte dos catadores.

Leia a íntegra da nota da prefeitura.

Não haverá nem retirada nem fechamento imediato das cooperativas instaladas sob o viaduto. No entanto, pelo fato de o local não ter as condições adequadas de segurança para abrigá-las, a Prefeitura Regional da Sé e os cooperados estão tentando encontrar, conjuntamente, novos locais para que a Cooper Glicério e Nova Glicério sejam acomodadas, sem prejuízo aos trabalhadores que delas vivem.

Os problemas de segurança no viaduto foram constatados no início de março em vistorias da Prefeitura Regional — dentre eles, riscos de incêndio. Também não foram encontrados documentos que atestassem a cessão da área por gestões anteriores.

Na última terça-feira (4), representantes da Prefeitura Regional Sé e da secretaria de Direitos Humanos participaram de uma reunião com membros das duas cooperativas para debater soluções com relação ao uso do espaço. Ficou assegurado que não haverá fechamento enquanto forem discutidas as saídas para este assunto. Na próxima reunião, cada cooperativa deverá apresentar propostas de locais para que a Prefeitura Regional analise a viabilidade. Caso seja necessária a mudança das cooperativas para outra região da cidade, a PR Sé dará apoio no transporte.

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Alexandre Aragão é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ele pelo email alexandre.aragao@buzzfeed.com

Contact Alexandre Aragão at alexandre.aragao@buzzfeed.com.

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